Sobre os problemas ao apresentar o Espiritismo conforme proposto por Allan Kardec

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David

O Espiritismo surge em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec.
Ao defini-lo, seu fundador faz da seguinte maneira:
“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.”¹
Kardec luta para que o Espiritismo seja visto como ciência, no entanto usa a expressão revelação em alguns momentos.
Na obra O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec traça uma linha histórica das revelações: Moisés – Cristo – Espiritismo.
Revelação, como se sabe, é um termo usado no meio religioso, sem relação com os princípios científicos de busca racional e metódica da verdade.
Podemos diferenciar revelação e ciência da seguinte forma:
a) revelação: saberes vindos de uma realidade transcendente.
b) ciência: saberes construídos pelo homem.
Se usarmos como metáfora uma subida como percurso até o conhecimento, podemos dizer que revelação significa alguém do alto nos diz o que está lá e ciência é nossa própria escalada até o conhecimento.
Aqui temos um problema: Como uma ciência pode ser revelação ao mesmo tempo?
Ao publicar a obra A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec insere o artigo já conhecido O Caráter da revelação espírita onde explica o termo revelação em suas possíveis acepções em se tratando de ciência espírita.
Para Allan Kardec as ciências são revelações. Homens de gênio (Copérnico, Galileu, Newton, Laplace,Lavoisier, etc.) são reveladores de primeira ordem. Possuem a capacidade de, buscando racionalmente respostas a suas questões, revelam conhecimentos antes velados, misteriosos. Eis a revelação.
Os professores, educadores em geral, transmitem esses conhecimentos, tornando-se reveladores de segunda ordem.
Nesse sentido o Espiritismo é uma revelação científica, pois o homem buscou, racionalmente, metodicamente os conhecimentos que, em conjunto, foram chamados de ESPIRITISMO.
No entanto, o homem não “subiu a montanha” sozinho. Na verdade ele não buscou inicialmente esses saberes. Foram os próprios Espíritos que se mostraram em fenômenos por eles causados, segundo Kardec, em momento providencial.
O “alto” teve a iniciativa, caracterizando uma revelação divina (providencial).
Sendo assim, o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma revelação divina e revelação científica, pois o homem teve sua participação no processo de construção dessa ciência ao examinar os fenômenos, julgar as informações dadas, elaborar um corpo racional de princípios e aplicações.
Allan Kardec nos legou suficiente material para definir o Espiritismo como ciência diferenciada, mesmo que o termo revelação, ao se tratar de questões científicas, seja repelido pelos sábios.
O problema agora é a prática desta ciência.
Se em definições temos material para o diálogo, em se tratando de prática e avanços científicos estamos no zero.
Após a morte de Allan Kardec o que se teve foi amadorismo (nas pesquisas espíritas) e tentativas frustradas de fundar novas ciências para tratar dos fenômenos.
A Metapsíquica e posteriormente a Parapsicologia trataram de soterrar o Espiritismo, o colocando em seus tratados da mesma forma que se vê a Astrologia em relação à Astronomia. É conhecido como “período espirítico” o que se inicia em Hydesville, passa por todos os anos de trabalho de Allan Kardec e se encerra no aparecimento da Metapsíquica.
A respeitabilidade acadêmica esperada pelos metapsiquistas não veio. Hoje as ciências paranormais são tratadas como pseudo-ciências, sem relevância ao avanço científico.
Paralelo a isso, no Brasil foi constituída a religião espírita, fundamentada na caridade católica e no esquecimento do método kardequiano. Líderes carismáticos surgem de tempos em tempos, recebendo da massa de fiéis a adoração calorosa que depositavam nos santos de suas antigas crenças.
Por ser mais uma religião, com templos e cultos específicos, membros de “outras religiões” não se interessam em conhecer o Espiritismo, pois significaria “conversão”.
Cientistas profissionais  e pessoas críticas e racionais evitam-no. Mesma postura que adotam em relação a qualquer religião.
O que temos é uma ciencia estacionada a 140 anos e uma religião fruto de grave deturpação própria de mentes supersticiosas.
Problema, não?
O religioso não quer saber de trocar a sua religião. O cientista não vê organização séria de publicações, trocas de experiências em pesquisas, ou seja, não há avanço constatável.
O que nos resta?
Talvez saborear os textos kardequianos, tirar deles sustentação científica para uma vida mais moralizada.
Talvez aprender nestes textos a melhor forma de evocar nossos familiares que já partiram e conversar com eles em diálogos agradáveis e consoladores através da mediunidade. Mediunidade sem donos, sem castrações, mas vivenciada seriamente, com recolhimento, em ambiente familiar.
A minha escolha, além de contemplar os dois parágrafos anteriores, é usar a internet, o meio mais democrático que o homem já criou, para divulgar os livros e as idéias de Allan Kardec, esse espírito brilhante.
Enquanto houver prazer na partilha do saber, enquanto houver paixão e vigor em mim, estarei por aqui.
1. O que é o Espiritismo.

Comentários

  1. Então Davi, você acredita que seja possivel fazer ressurgir esse "espírito científico" que foi perdido? Ou será que não tem mais como retomar esse caminho científico...

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  2. David, entendo, em analogia até mesmo com a palestra do prof. Massi que vi no site, que não podemos entender a parte sem analogia e compreensaõ do todo, assim, embora concorde em parte de seu artigo, seguindo esse raciocínio, não vejo como possamos desassociá-lo, o caráter científico, dos demais que compõem o Espiritismo, qual sejam - Religião e Filosofia, em sendo assim, embora muito escolham percorrer um ou outro camihno, a ciência Espírita deve ser vista, analisada e estudada sobre todos aspectos, permitindo-nos proveito real de seus ensinos....
    O resgate, como comentei em outro artigo seu, do Espiritismo de "cozinha", simples, inicial, e sério, é o que esperamos.....

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