Traduttore, traditore
Uma das dificuldades apresentadas a quem decide estudar as obras espíritas são os problemas apresentados nas traduções.
Além dos naturais “cochilos”, onde se peca pela má interpretação do texto original, existem certas adivinhações, isto é, apostas em relação ao que o autor desejava escrever ou a possíveis erros tipográficos.
1)Existe uma afirmação comum em resenhas de O Livro dos Espíritos. É a de que ele é constituído por 1018 ou 1019 questões. Evidentemente não se trata de um livro ter uma questão a mais. Não são livros diferentes, mas diferentes entendimentos de tradutores e editores.
A editora FEB, por exemplo, publicava o livro com 1018 questões numeradas. Posteriormente, optou por seguir o original. Recentemente Evandro Noleto fez uma tradução que seguiu a da Petit editora, numerando o sub-item que segue ao item 1010 como 1011.
2) Na obra O Evangelho segundo o Espiritismo acontece algo inusitado. Vejamos a nota da FEB: “O último período desse parágrafo – “inevitável parece a luta entre os dois e difícil achar-se o segredo de como chegarem a equilíbrio” – não aparece nas novas edições francesas desde a 3ª, mas se acha na 1ª edição e, por isso, a repomos no texto, corrigindo um evidente erro de impressão. – A Editora.
Ao lermos o texto sem a frase ele parece mais coerente, pois o que tenta construir é justamente “o segredo de como chegarem a equilíbrio”.
Veja a diferença do texto com e sem a citada frase.
Com a frase
Façamos uma comparação: Eis se acham ambos em perfeito estado; que devem fazer para manter o equilíbrio entre as suas aptidões e as suas necessidades tão diferentes? Inevitável parece a luta entre os dois e difícil achar-se o segredo de como chegarem a equilíbrio.
Dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que tem por base o aniquilamento do corpo, e o dos materialistas, que se baseia no rebaixamento da alma.
Sem a frase:
Façamos uma comparação: Eis se acham ambos em perfeito estado; que devem fazer para manter o equilíbrio entre as suas aptidões e as suas necessidades tão diferentes?
Dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que tem por base o aniquilamento do corpo, e o dos materialistas, que se baseia no rebaixamento da alma.
Herculano Pires realizou algo pouco compreensível. "Adaptou" o título de uma obra de Allan Kardec. O livro dos Médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores foi por ele renomeado como O livro dos Médiuns ou guia dos médiuns e dos doutrinadores.
Mas não é somente a obra de Allan Kardec que sofre pelas “adaptações” dos tradutores. A obra The History of Spiritualism (A História do Espiritualismo) de Arthur Conan Doyle foi traduzida como História do Espiritismo.
A surpresa de quem lê o livro tentando conhecer algo sobre Espiritismo é sempre grande. Pois Allan Kardec aparece em um pequeno capítulo, onde divide espaço com os alemães e italianos.
Até ali o termo spiritualisme é sempre traduzido como espiritismo. Então vem a frase incoerente:
“O Espiritismo na França e nas raças latinas concentra-se em torno de Allan Kardec, que prefere o termo espiritismo e sua feição predominante é a crença na reencarnação”
A tradução mais fiel seria:
“O Espiritualismo na França e nas raças latinas concentra-se em torno de Allan Kardec, que prefere o termo espiritismo...”
A obra Procès des Spirites de Mme. P.-G. Leymarie tem
“Conhecera pessoalmente Allan Kardec e freqüentava as sessões mediúnicas, às quartas-feiras, à Rua Sainte-Anne, residência de Kardec. O juiz quer saber um pouco mais acerca do Codificador. Que nome usava?
– Rivail, conhecido como Allan Kardec.
Vejam agora esta pergunta que mal esconde sua capciosidade:
– Tinha outras profissões?”
Veja o original:
R. — Beaucoup. J'ai suivi les séances qui avaient lieu chez lui, rue Sainte-Anne, tous les vendredis, pour étudier la phénoménalité et le Spiritisme.
D. — Quel nom portait-il alors ?
R. — Rivail, dit Allan Kardec.
D. — II avait d'autres professions ?
D. — II avait d'autres professions ?
No entanto, o tradutor é honesto, pois diz escrever um “resumo”. Aí se explica o uso do termo “codificador” comum aos espíritas brasileiros e bem posterior ao contexto de fundação do Espiritismo.
Diante desses equívocos, ainda o melhor é a busca dos originais.
Ei pessoal, parabéns pelo post. Esse problema da tradução das obras de Kardec é mesmo grave. Chamaria, contudo, a atenção para o fato de que toda tradução é também uma interpretação. Às vezes, isso é feito claramente - como as traduções de Herculano Pires, por exemplo -, outras vezes nem tanto. Mas, sempre o tradutor tem de transpor uma certa "distância" entre os universos linguísticos, o que nunca é fácil. No entanto, quer seja diante dos equívocos, das alterações deliberadas, ou das interpretações, concordo: "[...] ainda o melhor é a busca dos originais". Abraços!
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